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16/12/2019

Esgotamento total



Chega uma hora em que o estresse crônico com o trabalho não passa. A sensação de falta de energia ou de exaustão é constante. Todos os pensamentos sobre a vida profissional são negativos, cínicos, distantes. Um sentimento de impotência toma conta, e a produtividade vai lá para baixo. Não se trata de “mimimi” de jovens despreparados para os rigores da vida adulta, tampouco de um esgotamento que só atinge altos executivos de agendas extenuantes. A descrição acima é a do “burnout” (“queima total”, numa tradução livre), um mal de nossos tempos que, neste ano, passou a ser classificado como síndrome pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e já atinge quase 20 milhões de brasileiros, como indica uma pesquisa inédita obtida com exclusividade por ÉPOCA.

“Muita gente diz que burnout é depressão, estresse ou ansiedade. No burnout, podemos ter tudo isso”, explicou a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do estudo e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), que ouviu 6.070 pessoas com idades entre 21 e 65 anos, de diferentes cidades e classes sociais. “As áreas cerebrais afetadas são as mesmas. Mas a peculiaridade do burnout é que ele se desenvolve especificamente devido ao trabalho”, completou Abdo. A pesquisa constatou que um em cada cinco trabalhadores brasileiros sofre de burnout. Quando se levam em consideração também os que tiveram ao menos algum dos sinais, mas não “queima total”, fica-se diante de um quadro que atinge metade da força de trabalho do país.

Como trabalho sempre foi sinônimo de algum grau de estresse, uma das interrogações lançadas pela investigação é justamente o que estaria causando esses índices. Nas últimas cinco semanas, ÉPOCA ouviu médicos, psicólogos, psicanalistas, especialistas em mercado de trabalho e vítimas do esgotamento para entender o motivo dessa síndrome de alcance mundial. A conclusão é que a rotina profissional piorou de tal maneira nos últimos anos — impulsionada por avanços da tecnologia, mudanças na sociedade e no mercado de trabalho e novas dinâmicas empresariais —, que acabou por abalar a saúde mental das pessoas.

Para Rosylane Rocha, presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), não há dúvida de que a pressão aumentou. “Hoje é tudo ‘urgente’”, disse ela. A carga horária do trabalhador brasileiro se manteve estável em 40 horas semanais, segundo os dados do IBGE, mas a verdade é que esse número não capta as muitas mensagens de WhatsApp e e-mails de chefes e colegas que começaram a chegar fora do horário de expediente. “Todos estão dependentes e escravizados por aplicativos”, disse Rocha. Além disso, sistemas de metas para vários níveis de funcionários, raros há algumas décadas, hoje são mais comuns. Para adicionar um ingrediente brasileiro a um problema que é global, o momento do mercado de trabalho por aqui também não tem ajudado. Há três anos, as taxas de desemprego estão em dois dígitos, o que aumenta a tensão nas empresas.

 

 “Existe um desajuste maior entre o tempo que as pessoas dedicam ao trabalho e o que dedicam a si mesmas e às famílias. É um sinal de nossos tempos”, disse a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente no Brasil da International Stress Management Association (Isma), associação sem fins lucrativos criada em 1973 nos Estados Unidos para pesquisa, prevenção e tratamento de estresse e hoje presente em 12 países. Para Rossi, há um círculo vicioso. “Quanto mais se dá atenção ao trabalho, menos tempo se tem para outras atividades que ajudariam a diminuir a pressão”, disse.

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A pesquisa coordenada pela professora da USP sobre burnout, realizada com o apoio do laboratório Cristália, também ajuda a colocar luz sobre como os jovens estão sendo afetados. A síndrome atinge em especial os profissionais com menos de 30 anos. “As gerações mais novas têm menos recursos protetivos. Ações como dizer ‘não’ e reconhecer que não vão fazer algo exigem certa maturidade. Ou, no mínimo, uma posição melhor dentro da empresa”, afirmou o psicanalista Christian Dunker. “As quinas da vida, que sempre estiveram aí no mundo profissional, agora estão ainda mais agudas, machucam mais essa geração. Isso favorece o burnout, inclusive porque os dispositivos de tratamento natural para isso, como deixar de lado os smartphones e recorrer aos amigos, são menos difundidos entre os mais jovens. As gerações mais novas são mais solitárias”, disse Dunker, com base em décadas de experiência clínica.

 

Além dos jovens, as mulheres também sofrem mais que os homens — elas são 60% dos casos de maior intensidade da síndrome, segunda a pesquisa. Chegar do trabalho e ainda ter de dar conta das atividades domésticas é um dos fatores que pesam. Autocobrança também é frequente entre mulheres. Conta contra até o fato de elas ocuparem menos cargos de poder em um mercado normalmente liderado por homens, o que as leva a uma sobrecarga por frustração. Foi isso que indicou um estudo da Universidade de Montreal, no Canadá, divulgado no ano passado e que ajuda a entender o que se passa também no Brasil.

Mulher e jovem, Tayna da Silva Rios descreveu em detalhes o processo que a levou à queima total. Professora e historiadora, aos 26 anos acumulava dois empregos, um dando aula e outro como técnica de museologia, e ainda entrou num mestrado. “Comecei a ter dificuldade de concentração. Coisas que eu fazia com muita facilidade, como preparar aulas, textos e relatórios, já não funcionavam assim. Eu não tinha vontade de me levantar para trabalhar. Não entendia por quê. Eu me cobrava, porque sempre fiz mil coisas ao mesmo tempo”, lembrou Rios. Ela buscou o apoio de psicoterapia e, por um tempo, o diagnóstico foi de transtorno de ansiedade. Assim, manteve a rotina de trabalho. Mas aí veio uma crise de pânico, com episódios de falta de ar e crises de choro. Foi encaminhada a um psiquiatra que, há três anos, diagnosticou burnout. “Fiquei longe do trabalho uns 50 dias, entre afastamento e férias. Não queria. Mas meu médico disse que eu não tinha escolha”, contou. “Precisei de ajuda para dar atenção a meu corpo e entender que, por mais que pareça clichê, a vida não é só trabalho”, afirmou Rios, hoje com 31 anos.

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A primeira descrição de burnout aconteceu em 1974, pelo psicanalista alemão Herbert J. Freudenberg. Ele próprio desconfiava padecer da síndrome. Na década seguinte, a psicóloga americana Christina Maslach, da Universidade da Califórnia em Berkeley, desenvolveu um questionário para identificar o burnout, o mesmo usado pelos pesquisadores brasileiros. O foco de Maslach eram profissionais da área de saúde. Depois da primeira pesquisa, várias outras se seguiram. Um estudo de 2019 da Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos identificou burnout em 54% dos enfermeiros e médicos americanos e em 60% dos estudantes de medicina e residentes.Nas entrevistas, as pessoas têm de responder a perguntas como “Você sente que está na empresa ou profissão errada?” e “Você sente que não há nada para conversar?”, com notas em uma escala que varia de “nunca” (0) a “todos os dias” (6). Os especialistas identificam a síndrome quando há resultados significativos em áreas como exaustão associados a baixos resultados de eficiência profissional. O quadro reúne sinais físicos como fadiga, distúrbios do sono e dores no corpo; psíquicos, como desânimo, sentimento de desesperança, baixa autoestima e comprometimento da memória; comportamentais, como isolamento, agressividade, pessimismo e até uso de drogas e abuso de álcool; e profissionais, como queda de desempenho, baixa concentração e comunicação precária.

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A síndrome raramente se instala de uma vez, e os sinais vêm aos poucos, como conta o engenheiro de telecomunicações B.L.F., de 38 anos. Ele começou a sentir os efeitos físicos do excesso de trabalho, como cansaço e taquicardia, há uns dois anos, mas ignorou. “A empresa passou por uma reestruturação pesada, e a jornada de trabalho aumentou muito. Pensei que mais trabalho não seria problema. Fui absorvendo aquilo, só que o que era para durar alguns meses virou rotina. Estendeu-se para o final de semana e atrapalhou a relação com a família”, contou ele, que pediu para que seu nome não fosse revelado. Não demorou para que os sintomas voltassem mais fortes. Taquicardia passou a ser rotina, além de sensação de angústia e incapacidade. Foi quando resolveu procurar ajuda psicológica e, mesmo resistente no início, concordou em rever prioridades. Tirou férias. Na véspera de voltar para o Rio de Janeiro, onde mora, teve uma crise no avião. “Já em casa, no segundo dia, acordei e não conseguia sair para trabalhar. Passei a noite em claro. Fiquei travado, chorei muito. Aí caiu a ficha de que eu não podia mais”, lembrou.

Pesquisas feitas em outros países com a metodologia e o alcance adotados pelo levantamento brasileiro são raros. Mas há trabalhos que confirmam a preocupação crescente com o burnout. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), estudos realizados nos últimos dez anos indicam que 26,7% dos profissionais argentinos relatam estresse mental relacionado ao excesso de trabalho e 27,9% dos trabalhadores chilenos afirmam haver casos de estresse e depressão em suas empresas. “De maneira geral, mudou muito a noção que temos de tempo. Tudo tem de ser mais imediato, para daqui a pouco, e não é só no Brasil”, disse Bernard Miodownik, coordenador de Psiquiatria do Hospital São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro. Em outubro, no México, entrou em vigor uma lei criada para defender funcionários e dividir com os empregadores a responsabilidade de cuidar de sua saúde mental. A chamada Norma Oficial Mexicana obriga todas as empresas a atender “qualquer situação negativa relacionada aos empregados”, de desordens de sono a ansiedade ou alto estresse, para reduzir seu impacto e, na medida do possível, “erradicá-la ou evitá-la”. Na França, uma lei em vigor desde 2017 estabeleceu o “direito de se desconectar” e proíbe as empresas de mandar e-mails ou mensagens de celular para funcionários fora do horário de trabalho.

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Autor de Dying for a paycheck (Morrendo por um salário), o pesquisador americano Jeffrey Pfeffer, professor na Universidade Stanford, na Califórnia, é direto ao sugerir o que fazer quando o trabalho se torna prejudicial à saúde. “Em locais de trabalho tóxico, as pessoas devem fazer o mesmo que fariam se estivessem em um lugar cheio de fumaça ou pegando fogo: sair. Não há outra alternativa razoável, pois as consequências para a saúde são mortais”, afirmou. Há, claro, o pequeno detalhe das contas a pagar, que não param de chegar, independentemente das agruras da vida profissional. Mas Pfeffer alerta que, se no passado as condições de alto estresse no trabalho levavam ao abuso das bebidas e das drogas, isso só piorou. Hoje, não raro esses hábitos deletérios são acompanhados de pensamentos suicidas. A pessoa pensa em se matar, mas não em sair do trabalho. Pensa em deixar a vida, mas não em deixar o chefe. Uma hora, a conta chega.

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