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Confira na íntegra matéria publicada por UOL. Link: Tratamento experimental devolve esperança à família de nutricionista na UTI


A nutricionista e influenciadora Flávia Bueno, 35, internada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) após sofrer um acidente durante um mergulho, recebeu na última semana a aplicação da substância polilaminina, ainda em fase 1 de estudo clínico para tratamento medular, após autorização judicial.


O que aconteceu

Irmão relatou que a nutricionista mexeu o braço direito na segunda-feira (26), três dias após a aplicação da medicação. "Maravilhoso, incrível. Era algo que ela não tinha. A gente via que tinha uma contração de bíceps ali, mas não tinha essa mexida completamente voluntária sem ajuda. A gente acredita que seja o efeito da aplicação", disse Felipe Checchin ao UOL. "Estamos muito agradecidos, felizes e esperançosos", escreveu a família na rede social. Apesar da fala, ainda não é possível associar o episódio ao tratamento.


Cada mexida, cada dedo, cada coisa que mexer vai ser uma vitória. E a gente vai colecionar um monte até lá [a saída de Flávia do hospital].

Felipe Checchin ao UOL.


Justiça determinou o fornecimento da medicação, pelo laboratório Cristália, à Flávia após ser acionada pela família da paciente. Segundo a decisão, o laudo médico apresentado pela família à Justiça aponta que a paciente sofreu um trauma raquimedular agudo, que evoluiu para lesão medular e quadro clínico atual compatível com tetraplegia "sem perspectiva de reversão espontânea"


Decisão foi autorizada pelo juiz federal João Pedro Sarmento Dias Turíbio, do TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região), em 14 de janeiro. O documento, obtido pela reportagem, cita que os familiares foram informados acerca da natureza experimental da substância, riscos, bem como ausência de garantia da eficácia. Turíbio apontou o consentimento da família para o tratamento experimental "ainda sem evidência de alto nível quanto a sua segurança"


Já em 22 de janeiro, uma juíza federal determinou a intimação do laboratório e fornecimento da medicação em até 48 horas. "O acesso à saúde constitui direito fundamental, impondo ao Estado e aos entes que atuam sob regime regulatório o dever de viabilizar tratamento adequado, especialmente em situações de risco grave e imediato à integridade física e à vida", escreveu a magistrada Marilaine Almeida Santos. A aplicação na paciente foi realizada na sexta-feira (23)


Atualizações do caso

Flávia segue internada na UTI do Einstein Hospital Israelita, na zona sul de São Paulo. O irmão dela explicou à reportagem que a nutricionista passou por uma traqueostomia e hoje conta com o auxílio de um BiPAP, um respirador mecânico não invasivo, para auxiliar na respiração. Os médicos seguem acompanhando a paciente e buscam manter estáveis os batimentos cardíacos e a pressão arterial dela


Segundo Felipe, os médicos informaram que ainda não há previsão para a paciente deixar a UTI. Flávia é acompanhada por uma equipe multidisciplinar do hospital, que vai analisar se há alterações na medula da paciente após a aplicação da polilaminina. Ela também continua com as lesões neurológicas, que não apresentaram avanço. Procurado, o Einstein Hospital Israelita informou que a família de Flávia é quem está atualizando os detalhes sobre o quadro médico da paciente…


Nutricionista conseguiu uma vaga no Hospital das Clínicas, que é público, mas a transferência não foi realizada. Os parentes optaram por mantê-la no Einstein para conseguir a aplicação da substância


Família faz arrecadação para custear o tratamento médico de Flávia, que já ultrapassou R$ 1 milhão, como publicado com exclusividade pelo UOL em 14 de janeiro. O valor arrecadado visa pagar as cirurgias já realizadas e custear a internação e os procedimentos que ainda serão realizados enquanto a nutricionista estiver no hospital privado. As doações podem ser feitas apenas para a chave pix (e-mail) do irmão de Flávia e responsável financeiro: f.cbueno@icloud.com. O nome do destinatário das doações é Felipe Checchin da Silva Bueno


Polilaminina

A polilaminina é uma substância originada a partir da laminina. A laminina é uma proteína extraída da placenta, onde é encontrada em abundância, e é responsável pelo crescimento celular, principalmente de células nervosas. A substância foi descoberta após 25 anos de pesquisa de Tatiana Coelho de Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)


Estudos são desenvolvidos pelos pesquisadores da UFRJ em parceria com o laboratório Cristália. Rogério Almeida, vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvido do Cristália, explicou à reportagem que, após iniciar a parceria com Tatiana em 2019, o laboratório desenvolveu o processo de produção nacional da laminina.


Anvisa aprovou estudo clínico de fase 1 para tratamento com polilaminina em 5 de janeiro. O estudo será feito em cinco pacientes voluntários, com idades entre 18 e 72 anos, com lesões agudas completas da medula espinhal, que tenham indicação para cirurgia menos de 72 horas após sofrerem a lesão. Os locais para realização dos procedimentos ainda serão definidos pelo laboratório


Segundo Almeida, os pacientes que estão recebendo o medicamento hoje são através de decisões judiciais. Nestes casos, o laboratório deve disponibilizar gratuitamente a substância sem registro. Cabe ao paciente e familiares decidirem como será realizada a aplicação. De acordo com o laboratório, 17 pacientes de diferentes estados conseguiram a aplicação do tratamento via judicial, em hospitais públicos e privados, até a terça-feira (27)


Tratamento é feito com a aplicação da polilaminina direto na medula. Almeida explicou que o ideal é a colocação da substância durante a cirurgia de descompressão e estabilização da coluna do paciente logo após o trauma. Os estudos científicos conduzidos pelo laboratório foram realizados com base em lesões agudas, ocorridas há no máximo 72 horas


Porém, explica Almeida, na maioria dos casos, o paciente está recebendo a substância após a cirurgia de descompressão da coluna. Nesses cenários, como foi o de Flávia, é realizada a punção com agulha e injeção da polilaminina na medula. O tratamento fisioterápico é essencial após a aplicação do medicamento, de acordo com o vice-presidente do laboratório


"Esse não é o caminho ideal estudado, mas é uma via alternativa encontrada. A gente está tendo, de fato, melhora em alguns pacientes. Mas, como eles estão fora da janela ideal [de aplicação], essa melhora vai diminuindo a partir do momento em que a lesão está há mais tempo instaurada" - Rogério Almeida


Não há nenhum dado que indique que a substância funcionará em pacientes com lesão medular há mais de três meses, disse Almeida. Segundo o laboratório Cristália, já estão em andamento testes, inclusive em cães com lesões na medula há mais de dois anos, visando avaliar, no futuro, a possibilidade de uso do medicamento em pacientes com lesões mais antigas


"O público mais interessado nesse projeto é aquele que está lesionado há mais tempo. Sabemos que tem uma necessidade de atendimento a esses pacientes e a gente está fazendo vários testes para disponibilizar quanto antes um tratamento para esses pacientes. Porém, hoje, o que nós temos e o que estamos conseguindo atender são pacientes que estão numa fase aguda ou, no máximo, dentro de uma fase subaguda da lesão" - Rogério Almeida, vice-presidente do Cristália


Cristália diz ser o único produtor de polilaminina hoje no mundo e reforça que não oferece a substância a nenhum paciente. Almeida pediu para que a população tenha cuidado com golpes de pessoas que entram em contato prometendo a doação ou acesso ao medicamento


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Polilaminina UFRJ ANVISA

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