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Novos medicamentos: Rotas promissoras ( Valor Econômico )

Jornalista: Gleise de Castro

27/09/19 - A indústria farmacêutica vive um processo acelerado de transformação, impulsionado pelos avanços da tecnologia digital e da biologia genética. Baseada na biotecnologia e nanotecnologia, uma nova geração de medicamentos já está no mercado, tendo como alvo especialmente o câncer, doenças autoimunes e crônico-degenerativas. A principal fronteira agora são as terapias gênicas, desenvolvidas a partir da manipulação celular, que resultam em medicamentos personalizados, para tratamento de doenças hereditárias, como a esclerose lateral amiotrófica (Ela), câncer e algumas infecções virais.


Com investimentos globais de US$ 172 bilhões em 2018, as empresas farmacêuticas buscam desenvolver novos tratamentos para doenças ainda sem cura ou sem uma solução eficaz. Um esforço que tem ainda por trás o fato de que a quase totalidade das patentes de medicamentos expira até 2023, quando apenas duas das 20 principais marcas atuais continuarão sem a concorrência de genéricos e biossimilares, conforme informações divulgadas pela Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma).


“O mercado farmacêutico caminha para soluções inovadoras e personalizadas para quadros em que ainda não há cura ou resposta mais efetiva, como doenças raras, câncer, doenças neurológicas, infecciosas e demenciais”, diz Angélica Dimantas, diretora médica da Bristol-Myers Squibb (BMS). Essa é uma das linhas de pesquisa da empresa, cujo objetivo é reduzir sintomas e o sofrimento dos pacientes, enquanto não se alcança a cura, buscando transformar moléstias caracterizadas por desfechos fatais em doenças crônicas, com as quais pode-se conviver, com qualidade de vida.


O destaque dessas terapias são os medicamentos imunoterápicos, ou imuno-oncológicos, para tipos mais agressivos de câncer. A BMS lançou três fármacos imuno-oncológicos no mercado brasileiro, o mais recente deles aprovado em março, o Opdivo (nivolumabe), para tratamento de melanoma em adultos. Outros focos do laboratório são doenças degenerativas, demenciais e cárdio-vasculares. “Temos 38 moléculas em estudos, 21 delas em oncologia”, diz Dimantas.


Vania Nogueira de Alcantara Machado, presidente da Aché, ressalta que as novas opções de tratamento não suplantam necessariamente as já existentes. Em muitos casos, complementam o arsenal terapêutico. Para ela, rotas emergentes, como a terapia gênica, são promissoras, mas ainda requerem muitos estudos para demonstrar sua eficácia e segurança. Já a nanotecnologia, diz a executiva, constitui uma plataforma tecnológica transversal que pode ser aplicada a várias classes de moléculas — sintéticas, de produtos naturais e proteínas —, para melhorar suas propriedades biofarmacêuticas.


Uma das linhas de pesquisa do Aché é o desenvolvimento de medicamentos inovadores a partir de fontes naturais, como uma terapia experimental oral para tratamento do vitiligo, em fase de desenvolvimento clínico na Europa. O laboratório investe também em moléculas sintéticas para tratamento de câncer, em parceria com o A.C. Camargo Câncer Center e o Structural Genomics Consortium (SGC), e no desenvolvimento de produtos para necessidades médicas ainda não atendidas, com princípios ativos conhecidos. O Aché conta com 153 projetos com previsão de conclusão até 2023, dos quais 23 de inovação radical.


Para João Sanches, diretor de relações governamentais da Novartis, a terapia gênica já é realidade, assim como o uso de tecnologias digitais na área de saúde. “Em toda parte temos diagnósticos feitos por robôs, máquinas que vão aprendendo a fazer procedimentos de maneira mais eficaz”, diz. Nos próximos 12 meses, a empresa deve lançar no Brasil três produtos de terapia gênica aprovados nos Estados Unidos — uma terapia de reposição gênica (Zolgensma), para atrofia muscular espinhal (Ame), um tratamento imunoterápico (Car-T, Kymriah), para linfoma e o primeiro tratamento genético em oftalmologia (Luxturna), para distrofia hereditária da retina.


Em contraponto aos tratamentos sofisticados, que demandam altos investimentos, falta interesse econômico das grandes companhias pelo desenvolvimento e produção de medicamentos mais básicos, como antibióticos, para as chamadas doenças negligenciadas, que afetam populações mais pobres, de regiões em desenvolvimento. “Há uma necessidade premente no mundo por antibióticos”, diz Martha Penna, vice-presidente de inovação da Eurofarma. Para ela, o desinteresse das grandes empresas deve-se aos valores de venda desses produtos, infinitamente menores do que os obtidos, por exemplo, com as sofisticadas terapias oncológicas.


É nesse espaço que a Eurofarma se concentra, visando transformar-se de empresa de genéricos em empresa de inovação. A estratégia é capacitar-se na área de medicamentos anti-infecciosos, por meio de parcerias com universidades e empresas, mantendo a produção de genéricos, até como forma de gerar caixa para investimento em inovação incrementai e radical. A empresa conta com um pipeline de oito moléculas, com inovação radical e patenteada.


Na área de biossimilares, produtos biológicos similares a medicamentos de referência, a nacional Biomm tem dois medicamentos em aprovação na Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). A primeira insulina inalável no Brasil (Afrezza), para diabetes, desenvolvida em parceria com a americana MannKind Corporation, e o Herzuma, biossimilar do oncoterápico trastuzumabe, para um tipo câncer de mama mais agressivo, denominado HER2+, em parceria com a coreana Celltrion Healthcare. “O objetivo é ampliar o port- fólio de imunoterápicos para câncer e outras moléstias”, diz Heraldo Marchezini, diretor presidente da Biomm.


Com 15 estudos clínicos em diferentes fases, a EMS investe em inovação incrementai, genéricos de alta complexidade e produtos biotecnológicos. Atua também nos Estados Unidos, com Brace Pharma, braço de inovação radical, por meio da qual submeteu seu primeiro registro de produto ao Food and Drug Administration (FDA), em julho de 2018. Em 2019, a EMS obteve o registro de um anti-inflamatório associado a uma substância gastroprotetora (Nivux). “Até 2020, prevemos lançar, pelo menos, quatro produtos inovadores”, diz Marcus Sanchez, vice-presidente institucional da EMS.


Já o Laboratório Cristália lançou um hormônio de crescimento, para evitar o nanismo em crianças, e desenvolve nova molécula, disruptiva, para outra versão do produto. Segundo Ogari Pacheco, fundador da empresa, a vantagem será a necessidade mais espaçada de aplicações, em vez de administrações diárias. Outra pesquisa, também radical, visa a regeneração de nervos lesados.

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